Saturday, September 13, 2008

Da origem dos gatos

Quem convive com gatos já deve ter percebido que eles sempre desaparecem por microssegundos, que seja, no dia. Há quem diga que surgiram das sombras. Por isso são furtivos, porque são da mesma substância delas. Por isso têm sete vidas, enxergam no escuro e andam sempre de soslaio, quase serpenteando, sem tocar no chão, até. A origem desses felinos seria mágica também, pois o que os tornou o que são foram as lágrimas não derramadas de uma princesa, enclausurada num monastério sombrio há muito tempo atrás. Tão só era ela, que sua solidão lhe consumia o viver e determinava sua maneira de ver as coisas. Em tudo havia cores tristes, tons opacos e o silêncio, que a enlouquecia. Todas as noites durante muito tempo, chorava copiosamente deitada em seu leito, que afundava com o peso das lágrimas, e ia tão fundo que flertava com a passagem para o mundo dos mortos. A dor maior era jamais ter sido tocada por ninguém, e sua companhia durante o dia era uma estátua do jardim, sempre tão constante ao lançar seus olhares. À noite, conforme a posição da lua, a sobra da estátua penetrava no quarto pela janela, e a princesa se apressava em tocar-lhe, com a mão e com a mente, tentando de alguma maneira se ligar a ela. Algumas vezes teve a impressão de vê-la se mexer, em seguida desiludindo-se ao ver que era impossível algo assim acontecer. E m todas as visitas noturnas, e foram muitas, a garota enclausurada pedia que a sombra não fosse embora, que não a deixasse noites inteiras só. E chorou muito nessas ocasiões, sem que as sombras mostrassem que a ouviam, e o tempo passou. Uma noite dessas, bem clara de luar, ela não se levantou da cama, não se mexeu. Não derramou uma lágrima sequer, nenhum som jamais saiu dela de novo. E quem ficou só, naquela noite, foram as sombras, que lhe queriam tocar. Então, duas pequenas porções de sombra separaram-se de seu todo, e caminharam para ela, avançando pela luz da lua, flutuando sobre ela, melindrosas. Desde então, esses pequenos pedaços de sombra vagam pelas ruas da cidade, escondem-se nos cantos das casas, porque são frutos da solidão e do abandono da sombra pela princesa. Permanecem-lhe fiéis até hoje, e por alguns momentos, quando a solidão lhes aperta o coração como uma toada muito triste e aguda, aproximam-se de nós e nos deixam acarinhá-los, para logo em seguida irem adiante assumir seu lugar no todo de onde vieram.